PROJETO DE VIDA · QUEM ASSISTE
Terça, intervalo

Zoam um menino do 1º ano. Nina e Carol (em azul) estão na roda, olhando.

Quem tem mais poder nesta cena?

1Quem zoa
2Quem sofre
3Quem assiste
O Brasil hoje · escolares de 13 a 17 anos · chute da sala antes
4 em 10

sofreram bullying pelo menos uma vez no último mês.

IBGE, Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024 · 39,8%

Toronto, Canadá · anos 1990

Duas psicólogas puseram um microfone no meio do recreio.

Crianças usavam microfone sem fio e transmissor na cintura; câmeras filmavam de longe. Debra Pepler e Wendy Craig pararam de perguntar sobre bullying e passaram a ouvir.

Aposta · um número de 0 a 100, de cabeça

Em quantas cenas havia colegas assistindo?

88%

dos episódios gravados. Quase nunca é uma cena de duas pessoas.

Hawkins, Pepler e Craig, Social Development, 2001 · crianças de 6 a 12 anos, Toronto, anos 1990

Dedos: 1 quase todas · 2 metade · 3 menos de um quarto

E em quantas alguém da plateia fez alguma coisa?

19%

Em quatro de cada cinco cenas, ninguém da plateia agiu a favor de quem sofria.

O tempo da plateia, cronometrado · em média 4 colegas por cena

Assistir parado também alimenta a cena.

só assistindo54%
entrando junto com quem zoa21%
ajudando quem sofre25%

Quem zoa veio buscar uma coisa: público. Quem só assiste entrega isso a ele.

O’Connell, Pepler e Craig, Journal of Adolescence, 1999

Palpite com os dedos · depois o toque

Quando alguém da plateia se mexeu, quantas vezes a cena parou?

57%

das intervenções fizeram a zoação parar em até dez segundos.

Hawkins, Pepler e Craig, 2001 · parar, no estudo, é parar em até 10 segundos depois da intervenção

Finlândia, 1996 · 573 alunos de 12 e 13 anos

Todo mundo que está ali tem um papel.

Inclusive quem acha que não tem. Quem zoa muitas vezes busca status no grupo, e status só existe com alguém olhando.

Salmivalli e colegas, Aggressive Behavior, 1996

sofrezoaajudarisaidefende
Mecanismo · Holanda, 2009

Discordar do grupo acende no cérebro um sinal de erro.

O cérebro trata ficar de fora como uma conta errada a corrigir. É um empurrão, e dá para resistir a ele.

Klucharev e colegas, Neuron, 2009 · adultos julgando rostos

Para conversar

Por que a maioria só assiste?

Medo de virar o próximo alvo.
Acha que alguém vai fazer alguma coisa.
Acha que é brincadeira, e que quem sofre também está rindo.
Não sabe o que dizer.
Não é amigo de quem está sofrendo.
Finlândia · 7.481 crianças do 3º ao 5º ano · 2011

Ter pelo menos um defensor estava associado a ficar melhor.

72%

das vítimas tinham um colega que as defendia. Essas estavam mais bem ajustadas e mais aceitas.

popular

era como os colegas viam quem defendia.

Sainio, Veenstra, Huitsing e Salmivalli, International Journal of Behavioral Development, 2011 · correlação

Viktor Frankl, psiquiatra preso em campos nazistas

“Um capataz me deu escondido um pedaço de pão que tinha guardado do próprio café da manhã. Não foi o pão que me levou às lágrimas.”

“Foi aquele algo humano que ele também me deu: a palavra e o olhar que acompanharam o presente.”

Frankl, Em busca de sentido, parte I · tradução livre

Em coro, a turma inteira · ninguém fala sozinho

Três coisas que qualquer testemunha consegue fazer.

Tirar a plateia

Sem risada e sem celular apontado. Saia e chame os outros junto.

“Vem cá, preciso de você.”

Tira a pessoa da cena sem enfrentar ninguém.

“Vi o que fizeram. Você tá bem?”

Depois, a sós.

E conte a um adulto da escola: é assim que quem sofre recebe proteção.

A mesma cena, no grupo do celular

Nas redes, a plateia é quem compartilha.

Não repasse
Denuncie
Mostre a um adulto
O mesmo voto do começo

Quem tem mais poder na zoação?

1Quem zoa
2Quem sofre
3Quem assiste

Em Toronto, a plateia se mexeu em 19% das cenas.

Até domingo · a frase de depois

“Vi o que fizeram. Você tá bem?”

Diga isso a alguém, a sós. Um defensor já muda a cena para quem sofre.