PROJETO DE VIDA · VIKTOR FRANKL · O VISTO
Antes de começar

Hoje e na próxima aula, a história fala de perda.

Projeto de Vida · Viktor Frankl, 1938 a 1946 · duas aulas

O visto que ele deixou vencer

Viena, 1940–1941. Um médico judeu recebe a saída que todos esperavam, e não vai.

Dr. Júlio Lucena · Colégio NewWay

O tema destas duas aulas

Como se decide quando ninguém sabe o que vem depois.

A história vai parar três vezes. Nas três, você decide antes de saber o que ele fez.

Antes da história

O que é seu de um jeito que ninguém consegue tirar?

Aula 1

O visto

Viena, de 1938 a 1941.

Viena · 1905 a 1938

Um médico de Viena que cuidava de quem tinha perdido a vontade de viver.

Neurologista e psiquiatra. Ainda estudante, abriu atendimento gratuito para jovens. Escrevia o primeiro livro, sobre o sentido da vida.

Março de 1938 · a Alemanha nazista anexa a Áustria

Em três anos, tiraram dele quase tudo.

1938o título de médico
1938o consultório
nov 1938as sinagogas, queimadas
1941andar sem a estrela amarela
1941o direito de ficar: começam os trens
Hospital Rothschild · 1940

Ele mentia nos prontuários para que os pacientes não fossem mortos.

O regime mandava eliminar doentes mentais. Frankl, chefe da neurologia, trocava os diagnósticos, com risco da própria vida.

Instituto Viktor Frankl, Viena

A única saída

Para sair de Viena era preciso que outro país aceitasse receber você.

Quase nenhum aceitava. Os consulados tinham cotas e filas de anos. Um visto separava quem ia embora de quem esperava o trem.

A casa dos Frankl · 1941

Ele é o filho que ficou com os pais.

Gabriel, o paiquase oitenta anos
Elsa, a mãeem casa com ele
Stella, a irmãsaiu para a Austrália
Walter, o irmãotenta sair pela Itália
O consulado dos Estados Unidos chama

O visto saiu.

Os pais não estão incluídos. Ficam em Viena, e ele sabe o que espera os idosos que ficam.

Em casa, naquela noite

Os pais ficaram felizes. Queriam que ele fosse.

Ninguém pediu que ele ficasse.

Decisão 1 · você é Viktor Frankl, com o visto na mão

O que você faz?

AEmbarco. Vivo, termino o livro e ajudo de longe.
BFico. Meus pais dependem de mim.
O que cada escolha custa
SE EMBARCO
Vivo, e o livro existe
Posso tentar tirar os pais de lá
Eles enfrentam o trem sem mim
SE FICO
Estou com eles quando vier a ordem
Provavelmente vou junto
O livro pode nunca ser escrito
Ele não decidiu na hora · segundo as memórias dele

Cobriu a estrela com a pasta, entrou na catedral de Santo Estêvão e sentou para ouvir o órgão.

Contou depois que saiu de lá sem resposta, querendo um sinal.

Em casa, em cima da mesa

Um pedaço de mármore que o pai tinha trazido dos escombros da sinagoga.

Tinha uma letra gravada. Era a abreviação de um dos Dez Mandamentos.

Frankl, prefácio de Em busca de sentido

Viktor pergunta: de qual mandamento?

Honra teu pai
e tua mãe.

Êxodo 20,12 · o quarto mandamento na contagem católica, o quinto na judaica

O que ele fez

Ficou.

Deixou o visto vencer.

Dezembro de 1941

Ele casou com Tilly, enfermeira do hospital.

Por nove meses, moraram os quatro na mesma casa.

25 de setembro de 1942

A ordem chegou para os quatro.

Ele estava em casa quando bateram à porta.

Bilhete de saída · uma linha, sem nome

Por quem você deixaria um visto vencer?

Pode ser uma pessoa, pode ser ninguém. As duas respostas são honestas.

Fim da primeira aula

Ele ficou sem saber o fim.

O fim, vocês veem na próxima aula.

Segunda aula · antes de começar

Hoje a história chega aos campos.

Retomada · os bilhetes de vocês

Por quem você deixaria um visto vencer?

Três respostas da sala. Depois, alguém reconta a história até a porta.

Aula 2

O custo

O que ficar custou, e o que só foi possível porque ele ficou.

De 1942 a 1945

Três anos em quatro campos.

set 1942Theresienstadt, com os pais e Tilly
out 1944Auschwitz
out 1944Kaufering
mar 1945Türkheim, com tifo
Theresienstadt · fevereiro de 1943 · Gabriel Frankl, 81 anos, está morrendo

“Perguntei: ‘Sente dor?’ ‘Não.’”

“‘Quer alguma coisa?’ ‘Não.’”

“Eu o beijei e saí. Sabia que não o veria vivo de novo.”

“Mas tive o sentimento mais bonito que se pode imaginar: eu tinha feito o que podia.”

Viktor Frankl, relembrando a cena anos depois · tradução livre

Decisão 2 · Auschwitz, outubro de 1944 · mandam entregar tudo

No casaco está o livro que você levou anos para escrever.

AEntrego. Agora é sobreviver.
BArrisco e peço para ficar com ele.
O que ele fez

“Isto é o manuscrito de um livro científico. É o trabalho da minha vida.”

A resposta foi um palavrão. “Naquele momento”, escreveu, “risquei toda a minha vida anterior.”

Frankl, Em busca de sentido, parte I · tradução livre

No bolso do casaco que ele recebeu

Uma página só, de um livro de orações.

“Como entender essa coincidência senão como um desafio para viver os meus pensamentos, em vez de só pô-los no papel?”

Frankl, Em busca de sentido, parte II · tradução livre

Madrugada de inverno · a caminho do trabalho forçado, ele pensa em Tilly

“O amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana.”

“Eu não sabia, nem poderia ou precisaria saber, se a pessoa amada estava viva.”

Frankl, Em busca de sentido, Vozes, trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline

Uma jovem presa que sabia que ia morrer nos próximos dias

“Esta árvore é a única amiga que tenho na minha solidão. Eu converso com ela.”

Frankl perguntou se a árvore respondia, e o que dizia.

“Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu sou a vida, a vida eterna.”

Frankl, Em busca de sentido, parte I · tradução livre

Türkheim · março de 1945 · com tifo

Ele reescreveu o livro perdido em pedaços de papel.

“Tenho certeza de que essa reconstrução me ajudou a vencer o perigo de um colapso.”

Frankl, Em busca de sentido, parte II · tradução livre

Aula 2

O que fica

Viena, 1945.

27 de abril de 1945 · o campo é libertado

O que vocês imaginam que ele encontrou ao voltar para Viena?

Viena · 14 de setembro de 1945 · carta a amigos

“Soube que minha mãe foi mandada para Auschwitz uma semana depois de mim.”

“E eu mal tinha chegado a Viena quando me disseram que minha mulher também está morta.”

Viktor Frankl · tradução livre da edição americana das cartas

Decisão 3 · você tem 40 anos e perdeu quase todos

O que você faz com o que viveu?

ARecomeço longe e deixo o passado para trás.
BFico e transformo em trabalho.
O que ele fez · Viena, 1946

Ficou. E contou.

Ditou o livro em nove dias. Queria publicar sem o próprio nome: achava que assim poderia dizer tudo.

A mesma carta · sobre o casamento com Tilly

“O que vivemos não pode ser desfeito. Foi. E esse ter‑sido é talvez a forma mais segura de ser.”

Frankl, carta de 14 de setembro de 1945 · tradução livre

O que as três decisões têm em comum

Ele parou de perguntar o que esperava da vida.

Passou a perguntar o que a vida esperava dele. Nas três vezes, a resposta tinha um rosto.

Frankl, Em busca de sentido, parte I

A pergunta da primeira aula · uma síntese

O que você fez por alguém, ninguém consegue tirar de você.

Esta semana · duas linhas, sem nome

Quem está esperando alguma coisa de você?

Um nome e o que essa pessoa espera. Até domingo.

O que ele levou de Theresienstadt
“Eu tinha feito o que podia.”