Hoje a aula fala de perda.
Se em algum momento ficar pesado, você pode sair da sala, sem pedir licença e sem explicar. A equipe socioemocional está por perto hoje.
Ninguém vai precisar contar nada pessoal.
O que é seu de um jeito que ninguém consegue tirar?
Ele tinha um visto para os Estados Unidos, e ficou.
Viktor Frankl, psiquiatra, 36 anos. Por volta de 1930, tinha organizado atendimento gratuito para estudantes de Viena na época dos boletins.
Três anos, quatro campos.
“Perguntei: ‘Sente dor?’ ‘Não.’ ‘Quer alguma coisa?’ ‘Não.’ ‘Quer me dizer alguma coisa?’ ‘Não.’ Eu o beijei e saí. Sabia que não o veria vivo de novo. Mas tive o sentimento mais bonito que se pode imaginar: eu tinha feito o que podia.”
Frankl, relembrando a cena anos depois · tradução livre
“Olhe, isto é o manuscrito de um livro científico. Preciso guardá-lo a qualquer custo. É o trabalho da minha vida.”
A resposta foi um palavrão. “Naquele momento”, escreveu, “risquei toda a minha vida anterior.”
Frankl, Em busca de sentido, parte I · tradução livre
No bolso, uma única página.
No casaco de um homem morto na chegada, achou uma página de um livro de orações: o Shemá Israel.
“Como entender essa coincidência senão como um desafio para viver os meus pensamentos, em vez de só pô-los no papel?”
Frankl, Em busca de sentido, parte II · tradução livre
“O amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. (…) A redenção pelo amor e no amor!”
“Eu não sabia, nem poderia ou precisaria saber, se a pessoa amada estava viva.”
Frankl, Em busca de sentido, Vozes, trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline
“Esta árvore é a única amiga que tenho na minha solidão. Eu converso com ela.”
Frankl perguntou se a árvore respondia. “Sim.” E o que ela dizia?
“Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu sou a vida, a vida eterna.”
Frankl, Em busca de sentido, parte I · tradução livre
Ele anotou o livro perdido em pedacinhos de papel.
“Tenho certeza de que essa reconstrução, nos barracões escuros, me ajudou a vencer o perigo de um colapso.”
Frankl, Em busca de sentido, parte II · tradução livre
O que vocês imaginam que ele sentiu ao voltar para Viena?
“Estou em Viena há quatro semanas. Pouco antes de sair de Munique, soube que minha mãe foi mandada para Auschwitz uma semana depois de mim. E eu mal tinha chegado a Viena quando me disseram que minha mulher também está morta.”
Viktor Frankl · tradução livre da edição americana das cartas
A mãe, o pai, o irmão e Tilly. Da família, só a irmã sobreviveu.
“O que vivemos não pode ser desfeito. Foi. Mas esse ter-sido é talvez a forma mais segura de ser.”
“Vejo cada vez mais que a vida tem tanto sentido que, no sofrimento e até no fracasso, ainda deve haver sentido.”
Frankl, carta de 14 de setembro de 1945 · tradução livre
Duas pessoas arrancam a mesma folha do calendário.
Uma vê o bloco afinar, com medo. A outra escreve no verso o que viveu naquele dia e guarda junto das anteriores.
Para Frankl, o passado é um celeiro cheio. Nada do que foi vivido se perde lá dentro.
Escreva no verso da sua folha uma coisa que alguém deixou em você.
Em 1946, ele ditou um livro em nove dias.
Otimismo apesar da dor, da culpa e da morte.
Se ela está viva, diga a ela.
O que você escreveu no verso da folha. Se ela já partiu, conte a alguém que também a conheceu.
“Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu sou a vida.”
O que foi vivido fica guardado. Ter sido também é um modo de ser, e talvez o mais seguro.