Três situações · escreva A, B ou C para cada uma

Responda rápido, e
ninguém vai ler.

1

o resumo

Você fez um resumo bom da matéria. Alguém que nunca te ajudou pede. A) mando. B) mando se ele me der algo. C) digo que não ficou pronto.

2

o trabalho em grupo

Você fez quase tudo sozinho. Na hora de apresentar: A) divido o crédito igual. B) conto quem fez o quê. C) deixo claro que fui eu.

3

a pessoa nova

Chega um aluno novo, sozinho no intervalo. A) chamo para o meu grupo. B) chamo se alguém chamar junto. C) não é problema meu.

Dobre a folha e guarde. Ela volta no fim da aula.

Alemanha · uma turma de calouros · e uma câmera ligada

Trezentos e onze
estranhos numa sala.

grupos pequenos · um encontro por semana · tudo filmado e codificado por avaliadores treinados

Ninguém se conhecia. Toda semana, cada um dizia de quem tinha gostado mais no grupo. E a câmera ficava ligada o tempo todo.

Leckelt, Küfner, Nestler & Back (2015), Journal of Personality and Social Psychology, 109(5) · n = 311

Primeiro encontro · o que apareceu em quase todos os grupos

Na primeira semana,
a sala já tinha escolhido.

Quem ficou na frente foi o mesmo tipo de pessoa em quase todos os grupos: a que fala primeiro, ocupa espaço, chega à vontade, se apresenta com confiança. Nos questionários que eles tinham respondido semanas antes, essas pessoas pontuavam alto em narcisismo.

e isso não é xingamento

Narcisismo, aqui, é um traço medido: a tendência a se ver como especial e a buscar admiração. Num grau pequeno, todo mundo tem. Num grau alto, muda o que a pessoa faz numa sala cheia.

ninguém está sendo enganado

Na primeira semana, essa pessoa não fingiu. Ela é mesmo mais agradável de assistir. O problema aparece depois, e só o tempo o revela.

Guarde o nome que a sua turma imaginou. Vamos ver o que aconteceu com ela na terceira semana.

Terceiro encontro · a mesma pessoa, a mesma sala

A cada semana, um
pouco menos escolhida.

A régua, e ela importa: foram três semanas de encontros, não uma carreira. Ninguém mediu vinte anos de vida adulta.

Três semanas já bastaram. Vocês convivem com as mesmas pessoas há três anos.

Os avaliadores codificaram o motivo da queda

Arrogância, e a impressão
de não dar para confiar.

Não foi falta de carisma. Foi carisma sem lastro: a mesma pessoa que encantou na primeira semana, vista de perto por três semanas, passou a ser codificada como arrogante e percebida como pouco confiável.

reunindo dezoito estudos, mais de três mil pessoaso que aparece
virar o líder do grupoos narcisistas aparecem na frente
entregar resultado como lídera vantagem some inteira
com menos de uma semana de convívioa vantagem é a maior de todas
com convívio longoa vantagem cai pela metade

Grijalva, Harms, Newman, Gaddis & Fraley (2015), Personnel Psychology, 68(1) · meta-análise

Parte I

E quem
dá?

Adam Grant, Wharton · e o aviso que vem junto

Três palavras úteis
que não são medida.

doador

Nas trocas, pergunta primeiro o que a outra pessoa precisa. Dá sem fazer conta de retorno.

equilibrador

Dá na medida em que recebe. Mantém a conta em dia nos dois sentidos. É a maioria das pessoas.

tomador

Nas trocas, pergunta primeiro o que ganha. Dá quando o retorno é provável e visível.

Agora o aviso. Eu procurei o instrumento que mede isso e ele não existe. A revisão acadêmica que testou o arcabouço escreve que “a evidência empírica para a validade do arcabouço de Grant é escassa”, e os pesquisadores tiveram de inventar cenários porque não havia escala.

Vamos usar as três palavras assim mesmo, porque elas ajudam a pensar. O que eu não vou fazer é apresentá-las como diagnóstico.

Belle & Cantarelli (2024), Public Administration Review · quatro experimentos, 16.461 profissionais de saúde na Itália

O que a palestra afirma · levante a mão quem acredita

Os piores são doadores.
E os melhores também.

É uma tese bonita, e é por isso que a palestra tem dezenas de milhões de visualizações. Dar seria arriscado — mas o topo pertenceria a quem dá.

Levante a mão quem acredita. Vou anotar o número no quadro e ele fica lá até o fim da aula.

Fui atrás dos três estudos citados na palestra

A curva não aparece
em artigo nenhum.

o estudo citadoo que ele mediu de verdadeo que achou
os engenheirosgenerosidade percebida pelos colegas e equilíbrio nas trocas de favores — não estilo doadorgenerosidade traz status; equilíbrio traz produtividade
os estudantes
de medicina
os cinco grandes traços de personalidade contra a nota, ano a anoo resumo publicado não nomeia amabilidade entre os traços que ganham peso
os vendedoresnenhuma publicação localizada

A curva é uma síntese narrativa do autor, montada sobre três pesquisas que mediram construtos diferentes. É uma boa hipótese, e continua sendo uma hipótese.

Olhem o número no quadro. Vocês levantaram a mão para uma ideia bonita. Eu também levantei. Aprender a perguntar “quem mediu isso?” vale mais do que esta aula inteira.

Flynn (2003), Academy of Management Journal, 46(5) · Lievens, Ones & Dilchert (2009), J. Applied Psychology

Antes que isto vire pregação

Quem é menos amável
ganha mais dinheiro.

18%

a mais, entre homens

Homens menos amáveis contra homens amáveis, acompanhados por anos em painéis nacionais americanos.

5%

a mais, entre mulheres

A mesma comparação entre mulheres. A penalização por ser amável é bem menor.

e o mecanismo foi testado

Num experimento de seleção, houve penalização explícita contra candidatos homens descritos como amáveis.

Quatro estudos, dados de anos, mais um experimento que isola a causa. Se esta aula fosse sobre salário, o conselho honesto seria o contrário do conselho bonito.

Vocês precisam saber disso hoje. Quem descobre sozinho, mais tarde, costuma jogar fora a coisa inteira.

Judge, Livingston & Hurst (2012), J. Personality and Social Psychology, 102(2), 390–407

Parte II

O que tem
medida

Duzentos e um estudos · cento e noventa e oito mil pessoas

A relação existe,
e ela é pequena.

1,7%

é o quanto ser prosocial explica do seu bem-estar

Reunindo 201 estudos e 198 mil pessoas. Existe mesmo. E os outros 98% da sua felicidade são outra coisa.

0,6

ponto numa escala de felicidade de 0 a 10

É quanto atos de bondade designados moveram a felicidade em 27 experimentos com 4.045 pessoas. Real, medido, e pequeno.

Reparem no que acabei de fazer, porque vocês vão precisar disso a vida inteira: o estudo existe, o resultado é verdadeiro, e o tamanho dele cabe numa unha. Manchete nenhuma diz isso.

Os próprios autores avisam: os experimentos tinham em média 79 participantes quando precisariam de 202. E quase todos eram universitários do Canadá, dos Estados Unidos e da Europa.

Hui, Ng, Berzaghi, Cunningham-Amos & Kogan (2020), Psychological Bulletin, 146(12) · Curry et al. (2018), J. Experimental Social Psychology, 76

O achado mais desconfortável do tema

Talvez quem está bem
é que ajuda mais.

Meta-análise de 2026, 186 estudos e 29 mil trabalhadores: acompanhando as mesmas pessoas ao longo do tempo, estar de bem prediz ajudar depois. Quase ninguém testou a direção contrária.

Por que isso importa clinicamente: se a seta for essa, mandar alguém que está mal “fazer o bem que melhora” é um conselho que falha — e ainda entrega à pessoa a culpa pela falha.

Wiese, Scotney, Hou & Tay (2026), Applied Psychology: Health and Well-Being

Os dois ensaios randomizados na faixa de vocês

Os dois deram
resultado nulo.

97

adolescentes de 14 a 17 anos

Quatro semanas, três braços, atos de bondade designados. “As mudanças em bem-estar ao longo do tempo não diferiram entre as condições.”

383

alunos de 11 a 14 anos

Ensaio escolar canadense. Nenhuma diferença significativa entre controle e intervenção em qualquer medida de bem-estar.

Mas escondido dentro do primeiro ensaio está o achado de verdade: os adolescentes que já eram altruístas ganharam afeto positivo e perderam estresse. Os que não eram não ganharam nada.

Régua honesta: 97 pessoas divididas em três braços é pouquíssimo poder estatístico. Nulo aqui quer dizer ninguém conseguiu medir, e não que esteja provado que não funciona. Mas também não dá para prometer o contrário.

Tashjian et al. (2021), J. Youth and Adolescence, 50 · Binfet & Whitehead (2019), Int. J. Emotional Education

Por que “seja mais generoso” não é um conselho neutro

Dar custa preços
muito diferentes.

74

o custo é desigual

Num estudo com 74 pessoas, quanto mais amável a pessoa já era, melhor e menos estressada ela se sentia ao agir com amabilidade. Para quem não é, o mesmo ato cobra mais caro.

escolhido × cobrado

Existe medida separando ajudar por escolha de ajudar porque se espera que você ajude. A segunda produz fadiga e desequilíbrio. A primeira não produz o mesmo.

e um termo que é frouxo

“Fadiga de compaixão” é construto contestado, mal diferenciado de outros dois, com lacunas conceituais reconhecidas na própria literatura. Vale como imagem, não como diagnóstico.

Quem ouve “seja mais generoso” e sente que está sendo esmagado não está falhando de caráter. Está pagando um preço que a frase nunca mencionou.

Leikas (2025), Frontiers in Psychology, n = 74 · Rauvola, Vega & Lavigne (2019), Occupational Health Science, 3

Parte III

O único estudo que
mediu o porquê

As mesmas horas, o mesmo trabalho, quatro anos depois

O que separou os dois

grupos foi o porquê.

o mesmo gesto dos dois lados · à esquerda, a seta volta para quem deu · à direita, ela segue adiante

1

O estudo ajustou por saúde, renda, personalidade, cognição e até pelo próprio ato de ser voluntário.

2

Voluntário por si mesmo — currículo, obrigação, aparência: o mesmo risco de morte de quem não era voluntário nenhum.

3

Voluntário pelo outro: risco reduzido. Frankl chamava isso de autotranscendência — o ser humano se realiza na medida em que se esquece de si.

O que todo mundo repete e não se sustentou

Quatro coisas que eu
tirei desta aula.

“um tomador faz duas a três vezes mais estrago que o bem de um doador”

Nenhum estudo mede isso. O padrão vem de uma revisão geral sobre assimetria entre bom e ruim, que não estuda doadores nem tomadores.

“gastar com os outros deixa você mais feliz”

Replicação registrada, quase 7.000 pessoas: gastar agora, de verdade, sobrevive. Lembrar de ter gastado some. E o estudo do bônus, o mais citado em palestra, tem dezesseis participantes.

“bondade retarda o envelhecimento celular”

Experimento pré-registrado, 230 adultos, quatro semanas, com medida de telômeros: nulo para bem-estar e nulo para a biologia.

“voluntariado faz bem à saúde”

Em estudos observacionais, sim. Mas o benefício cai de 47% para 24% quando se ajusta por saúde prévia, e não foi confirmado pelos estudos experimentais.

Aknin, Dunn, Proulx, Lok & Norton (2020), JPSP · Fritz et al. (2021) · Jenkinson et al. (2013), BMC Public Health, 13:773 · Okun, Yeung & Brown (2013)

Seis estudos de campo, com comportamento real

Pedir funciona o dobro
do que você imagina.

o pedidoquantas pessoas achavam que precisariam abordarquantas precisaram
responder um questionário20,510,5
emprestar o celular10,16,2
acompanhar até a academia7,22,3
79%

superestimaram a dificuldade

Quase quatro em cada cinco acharam que seria bem mais difícil do que foi.

e a razão é de posição

Quem está do lado de ajudar prevê que metade aceitaria. Quem está do lado de pedir prevê um terço. O mesmo pedido, visto dos dois lados.

Flynn & Lake [Bohns] (2008), J. Personality and Social Psychology, 95(1) · seis estudos de campo

A folha do começo da aula, agora

Duas linhas, e a segunda
é um experimento.

1

um ato, com nome e prazo

Uma coisa concreta, para uma pessoa específica, nesta semana. Escreva o nome dela. E escreva por que você vai fazer — se a resposta for “para ficar bem comigo mesmo”, escreva isso com honestidade: vocês viram que o porquê muda o resultado.

2

o experimento de pedir

Peça uma ajuda real a alguém esta semana. Antes de pedir, anote quantas pessoas você acha que vai precisar abordar até alguém aceitar. Depois anote quantas foram. Traga os dois números na próxima aula.

Vamos somar os números da turma e comparar com os dos estudos americanos. É o único dado desta aula que terá sido medido em vocês.

Para fechar
“Será que
dar compensa?”

Vocês repararam que a aula inteira tentou responder a essa pergunta com número, e que os números todos deram pequeno? Um centésimo aqui, dois décimos ali.

Talvez porque a pergunta já traga a resposta embutida. Quem precisa que compense ainda está fazendo a conta. E foi exatamente a conta que apareceu nos dados: o voluntário que ia pelo próprio currículo teve o mesmo desfecho de quem ficou em casa.

Gire o aparelho para a horizontal

a aula foi desenhada em paisagem
Projeto de Vida · Doadores e tomadores
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Índice da aula — toque para navegar
Como conduzir

No iPad: deslize para os lados ou toque nas bordas esquerda e direita da tela para navegar. Os controles somem sozinhos depois de alguns segundos — toque na tela para trazê-los de volta.
Teclado: ← → navegam · espaço avança (e controla o cronômetro na tela 16) · N notas · O índice · P modo projetor · F tela cheia · H volta para a lista de aulas.
Projetando: ative o modo projetor (◐︎) — ele aumenta o contraste para telas lavadas por luz ambiente.

Nota do apresentador

Tela cheia no iPhone

O Safari do iPhone não tem botão de tela cheia. Para apresentar sem a barra do navegador, adicione a aula à tela de início — ela passa a abrir como um aplicativo, ocupando a tela inteira.

  1. 1 Toque em Compartilhar, na barra do Safari.
  2. 2 Role e escolha Adicionar à Tela de Início.
  3. 3 Feche o Safari e abra a aula pelo ícone novo.

É assim que a aula deve ir para o projetor: sem barra, sem endereço, só o conteúdo. Espelhe por AirPlay depois de abrir pelo ícone.