Comprar o botijão.
Marcar o dentista.
Descobrir por que a conta de luz veio 180.
Lavar o edredom.
Ir ao cartório reconhecer firma.
Trocar a lâmpada do banheiro.
Ligar para o plano e perguntar se cobre.
Tirar a carne do congelador antes de sair.
Ver se ainda dá para pagar o boleto sem multa.
terça-feira.
Não tem incêndio, nem hospital, nem crise. E ela é de alguém com dezenove anos, quatro meses depois de passar no vestibular, morando a seiscentos quilômetros de casa.
Nenhuma dessas nove coisas caiu na prova.
Quantas dessas nove
você faria hoje, sozinho?
O IBGE tem uma lista,
e ela tem seis itens.
a comida
Preparar e servir alimentos, arrumar a mesa, lavar a louça.
a roupa
Cuidar da limpeza e da manutenção de roupas e sapatos.
o conserto
Pequenos reparos no domicílio, no automóvel, nos eletrodomésticos.
o espaço
Limpar e arrumar o domicílio, a garagem, o quintal, o jardim.
a burocracia
Cuidar da organização do domicílio: pagar contas, contratar serviços.
os bichos
Cuidar de animais domésticos.
IBGE · PNAD Contínua, módulo Outras Formas de Trabalho · definição do glossário oficial
Quem foi medido: 148,1 milhões de brasileiros de 14 anos ou mais, na amostra domiciliar da PNAD Contínua, ano de referência 2022.
Dezessete horas.
a média do país
por semana, em afazeres domésticos e cuidado de pessoas.
mulheres
quase o dobro de uma jornada semanal de aula.
homens
a diferença entre as duas colunas é de 9,6 horas por semana.
Entre pessoas ocupadas a diferença cai para 6,8 horas. Entre não ocupadas, sobe para 11,1.
IBGE · PNAD Contínua · Outras Formas de Trabalho 2022 · divulgado em 11/08/2023
A idade que menos faz
é a de vocês.
Proporção de pessoas que fazem alguma tarefa doméstica, por faixa de idade:
| 14 a 24 anos | 76,9% |
| 25 a 49 anos | 89,2% |
| média do país | 85,7% |
Dentro da faixa 14–24: rapazes 67,8%, moças 86,4%. Um em cada três rapazes desta idade não faz nenhum dos seis itens.
IBGE · PNAD Contínua · Outras Formas de Trabalho 2019
O que acontece
com quem chega lá
Agora vamos olhar para quem já atravessou: os que passaram, se mudaram, e estão morando sozinhos neste momento.
Um em cada quatro estuda
fora da cidade onde mora.
de todos os estudantes
4 milhões, de um total de 53,6 milhões, estudam em outro município.
no ensino superior
na graduação, mais de um em cada quatro.
mudam de estado
33.929 dos 309.266 ingressantes de universidades federais.
A régua: "estudar fora do município" inclui quem faz ida e volta todo dia. Não é o mesmo que ter se mudado de casa.
IBGE · Censo Demográfico 2022 · INEP · Censo da Educação Superior 2018
O que o INEP fez: pegou todos os ingressantes de 2010 na graduação brasileira e acompanhou cada um, aluno por aluno, durante quatro anos. Não é amostra — é o país inteiro.
Onze em cada cem
saem no primeiro ano.
A régua: "desistência" aqui é desistência daquele curso. Quem troca de curso e continua na faculdade conta como desistente. O número de quem abandona o ensino superior é menor.
MEC/INEP · Indicadores de Fluxo da Educação Superior · coorte 2010–2014
Como foi medido: uma turma inteira de ingressantes acompanhada semestre a semestre, com análise de sobrevivência — 1.391 estudantes, 35 cursos, uma universidade federal.
Alguns entram com
o risco já maior.
de risco no primeiro semestre
depois de dois anos, só 52% continuavam matriculados.
o preditor que vocês controlam
quem não entrou no curso que queria evade mais. Depois do desempenho, é o fator mais forte.
o que mais protege
receber auxílio estudantil reduz substancialmente o risco. Nível socioeconômico, sozinho, quase não previu nada.
Nierotka, Salata & Martins · Cadernos de Pesquisa (Fundação Carlos Chagas), 2023
Oito em cada dez relatam
alguma dificuldade emocional.
| ansiedade | 63,6% |
| desânimo, desmotivação | 45,6% |
| insônia, alteração do sono | 32,7% |
| desamparo | 28,2% |
| solidão | 23,5% |
| tristeza persistente | 22,9% |
Média de três dificuldades simultâneas por estudante.
ANDIFES/FONAPRACE · V Pesquisa Nacional de Perfil dos Graduandos das IFES · coleta em 2018 · 424.128 questionários validados
Essa pesquisa tem um buraco,
e vocês precisam vê-lo.
o que aconteceu
Os 424 mil estudantes não foram sorteados. Eles receberam um link e responderam se quisessem.
por que isso importa
Quem está sofrendo tem mais motivo para clicar num questionário sobre sofrimento. Isso quase certamente empurra os números para cima.
O número continua importando: 424 mil pessoas é gente demais para ignorar. Mas ele mede quem respondeu, e não o estudante médio do Brasil.
Guardem a pergunta: quem foi sorteado, e quem se ofereceu?
A transferência
"Na realidade, não importa que não esperemos nada da vida,
mas sim se a vida espera alguma coisa de nós."
Viktor Frankl · Em busca de sentido
A conta de luz que ninguém pagou é uma pergunta. O remédio que a sua avó esqueceu é uma pergunta.
Elas não são nobres nem bonitas, e ninguém vai te aplaudir por responder. Mas são endereçadas a você, e a mais ninguém, naquela hora.
Quem foi medido: 118.099 escolares de 13 a 17 anos, em 4.167 escolas públicas e privadas de todo o Brasil, entre abril e setembro de 2024.
Quatro em cada dez não
tomam café da manhã.
| 2015 | 63,6% |
| 2019 | 59,3% |
| 2024 | 59,6% |
"Tomar café da manhã" aqui significa cinco dias por semana ou mais. Na região Sul, a menor taxa do país: 51,3%.
IBGE e Ministério da Saúde · PeNSE 2024
Setenta e sete por cento comem
fazendo outra coisa.
Sem diferença entre rapazes e moças. Está em todo mundo.
IBGE · PeNSE 2024 · três edições da mesma pergunta
A mesa com os pais segurou.
| 2015 | 68,7% |
| 2019 | 68,8% |
| 2024 | 68,3% |
Entre todos os indicadores de alimentação da pesquisa, este é o único que não caiu em nove anos.
Entre 13 e 15 anos são 72,6%, e a taxa cai conforme a idade sobe. Vocês estão na idade em que essa mesa começa a se esvaziar.
IBGE · PeNSE 2024 · refeições com pais ou responsáveis em cinco dias por semana ou mais
O estudo de Harvard sobre tarefas
domésticas não existe.
o que o post diz
"Estudo de Harvard mostra que crianças que fazem tarefas de casa se tornam adultos bem-sucedidos."
o que eu achei quando fui ver
O estudo de Harvard é o Grant Study, que acompanha homens desde 1938. A palavra chores não aparece nele. O diretor atual resume oitenta anos de pesquisa numa palavra: relacionamentos.
o estudo que existe
Rossmann, Universidade de Minnesota, 2002. Crianças que participavam de tarefas aos 3 ou 4 anos foram avaliadas como mais bem-sucedidas aos vinte e poucos.
E as limitações, ditas em voz alta: 84 pessoas. Uma região dos Estados Unidos. Uma coorte dos anos 1960. É correlação, não causa — a tarefa pode ser marca, e não motor.
Rossmann, M. · University of Minnesota, 2002 · n = 84
Vinte e seis anos,
na Europa.
anos, média da União Europeia
idade média de saída da casa dos pais.
Croácia
a mais tardia do continente.
Finlândia
a mais precoce.
No Brasil ninguém mede isso. Procurei no IBGE e no IPEA: não existe indicador nacional. O número "cresceu 137%" que circula na imprensa é de uma empresa privada de pesquisa de mídia, sem amostra nem metodologia publicadas.
Eurostat · dataset yth_demo_030 · 2024
Três coisas da lista,
e quem sabe fazer.
escolha três
Cada um aponta três itens da primeira tela que não saberia fazer hoje.
ensine um
Se o colega souber um deles, ele explica. Um minuto, nem mais.
a terceira coluna
O que nenhum dos dois souber fazer vai para uma lista à parte. É dela que eu vou perguntar depois.
Uma tarefa,
a partir de segunda.
a tarefa
Uma coisa da sua casa que hoje é de outra pessoa e passa a ser sua. Uma só.
quando
Dia e hora. "Quando der" não é resposta.
quem vai saber
A pessoa de quem você está tirando essa tarefa. Avise hoje.
Tamanho não importa. Marcar o próprio dentista importa mais do que vocês imaginam, porque envolve falar com um adulto desconhecido no telefone — e foi isso que mais apareceu nas terceiras colunas de vocês agora há pouco.
que começou.
Não existe cerimônia. A vida adulta chega como aquela lista da primeira tela: uma tarefa de cada vez, em dias comuns, quase sempre sem ninguém olhando.
Segunda-feira tem uma coisa da lista com o seu nome nela.